quarta-feira, 30 de julho de 2014

Os EUA acusam a Rússia de violar um tratado da Guerra Fria!

Excelente reportagem transcrito do El País para o Blog Sempre Guerra!

As disputas entre Washington e Moscou, antigos rivais da Guerra Fria, se acumulam a cada dia. O Governo Obama acusa a Rússia de violar um tratado firmado em 1987 pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan e pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, que proíbe testes com mísseis de médio alcance. As simulações que Moscou teria realizado, segundo Washington, representam “uma questão muito grave” que exigem que ambos os países iniciem um diálogo de alto nível. As relações entre ambos já estão estremecidas por causa da guerra na Ucrânia e por uma escalada diplomática que tem ecos de tempos passados.

Um funcionário da Administração Obama, que pediu para não ser identificado, confirmou por e-mail a informação, revelada na noite de segunda-feira pelo The New York Times.

“Os Estados Unidos determinaram que a Federação Russa está violando suas obrigações sob o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês)”, afirmou o representante americano. “Para ser mais específico, o Relatório de Cumprimento de 2014 inclui a conclusão de que a Federação Russa viola as obrigações do Tratado INF de não possuir, produzir ou realizar testes de voo de mísseis de cruzeiro lançados do solo com uma capacidade de alcance de 500 a 5.000 quilômetros, nem possuir ou produzir os lançadores desse tipo de míssil”.

Segundo reportagem do The New York Times publicada em janeiro, os Estados Unidos acreditam que a Rússia começou a realizar esses testes em 2008. Foi a primeira vez que se revelaram as suspeitas, agora formuladas em voz alta.

Ainda de acordo com o jornal norte-americano, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comunicou as conclusões a seu homólogo russo, Vladimir Putin, na segunda-feira. O Departamento de Estado pretende publicá-las nesta terça-feira, no já citado Relatório de Cumprimentos, informou a agência Associated Press.

“É um assunto muito grave que tentamos abordar com a Rússia já há algum tempo”, disse o funcionário do Governo norte-americano.

A disputa pelos mísseis nucleares ocorre no momento de maior tensão entre os Estados Unidos e a Rússia nos últimos anos. As relações entre os dois países pareciam bem encaminhadas graças ao reset de 2009, ano em que Obama chegou à Casa Branca. O reset foi uma tentativa de zerar o contador dos problemas bilaterais.

A piora nas relações ficou evidente há um ano, quando a Rússia acolheu Edward Snowden, ex-funcionário dos serviços secretos norte-americanos que entregou a vários jornalistas documentos secretos sobre a espionagem eletrônica realizada por seu país.

A crise na Ucrânia, após os protestos que, em fevereiro, provocaram o fim do governo pró-russo em Kiev e a posterior anexação da Crimeia pela Rússia, atrapalharam ainda mais o relacionamento. Nos últimos dias, a Casa Branca destacou a Rússia como cúmplice obrigatória da derrubada de um avião de passageiros que sobrevoava a Ucrânia, em 17 de julho.

A Casa Branca defende que os rebeldes pró-russos lançaram por engano um míssil contra o avião, mas argumenta que foram os russos que, ao armar e treinar os separatistas no uso desses artefatos, criaram as condições para a tragédia. Os Estados Unidos e seus aliados da União Europeia preparam uma nova rodada de sanções econômicas destinadas a convencer Putin a desistir de ajudar os insurgentes do leste da Ucrânia.

As tensões entre os Estados Unidos e a Rússia por causa de um território europeu evoca em alguns aspectos o embate entre os Estados Unidos e a União Soviética entre o fim dos anos quarenta e 1989, quando caiu a Cortina de Ferro, que dividia a Europa. O tratado de 1987 entre Reagan e Gorbachev foi uma das decisões que contribuíram para enterrar aquele conflito no qual as superpotências se enfrentaram sem trocar nenhum tiro diretamente.

Esse tratado pôs fim a dez anos de discussões, negociações e protestos por causa da instalação, na Europa, dos mísseis soviéticos SS-20 e da réplica norte-americana, os Pershing. O episódio marcou a última etapa da Guerra Fria. Dividiu os europeus, reacendeu o temor de um holocausto nuclear no Velho Continente e deu impulso a movimentos pacifistas e ecológicos que transformaram o cenário político de países como a Alemanha.

Com o fim da Guerra Fria e a dissolução do bloco soviético, os motivos originais para o desarmamento começaram a parecer distantes. Nos anos mais recentes, a Rússia reclamou de que os limites impostos pelo tratado fazem pouco sentido hoje em dia, e defendeu que os mísseis proibidos lhe poderiam ser úteis diante de novas ameaças procedentes dos territórios vizinhos.

“É um pouco difícil entender por que a União Soviética aceitou [o tratado] na época, já que essas armas, em todo caso, têm pouca relevância para os americanos por eles não terem nenhum lugar onde utilizá-las”, disse Putin em um discurso em 2013. “Mas para a União Soviética e para a Rússia de hoje, principalmente levando em conta que alguns de nossos vizinhos estão desenvolvendo armas ofensivas desse tipo, aquela decisão foi, no mínimo, discutível”.

Washington prefere a opção de sentar e conversar com Moscou e conseguir que, no futuro, os russos cumpram o tratado e eliminem as armas “de maneira verificável”, ou seja, provavelmente com inspeções internacionais.

Segundo o citado funcionário do Governo Obama, se a Rússia não cumprir, “os Estados Unidos vão certamente discutir a questão com seus aliados para avaliar o impacto dessa violação russa na nossa segurança coletiva”.

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